O retorno da voz

Outro dia David escreveu que terminar é aceitar a morte de quem não morreu, dentre outras coisas lindas e perspicazes que ele escreve com uma facilidade que só não me irrita porque nós já finalizamos muitas garrafas de vinho juntos.

Estou girando essa frase na minha língua, sem conseguir engolir, há uns bons dias, quiçá semanas – o tempo tem corrido tanto. Mas ontem talvez as coisas tenham clareado. Ontem eu estava furtiva e chapadamente tentando subir no trampolim da piscina de uma casa da realeza brasileira enquanto mais 800 pessoas dançavam sem se importar muito comigo quando, junto com o segurança simpático, que não levou cinco segundos pra aparecer, veio a reboque um rapaz com quem eu tive um breve lance no início do ano passado. Não mais de duas semanas, com uma recaída um mês depois. Ele me ajudou a descer do trampolim e perguntou o que a gente nunca quer perguntar mas sempre pergunta, porque qualquer coisa a mais ou a menos pode mandar a mensagem errada: “e aí, tudo bem?” “Tudo bom”.

Como é esquisito ouvir uma voz que não ouvimos há muito tempo. Sempre que morre uma pessoa próxima essa é a primeira coisa que eu penso: nunca mais vou ouvir essa voz. Não ao vivo. Mas pior ainda é o retorno da voz de um amante, alguém que já sussurrou absurdos no seu ouvido. Enfim. Eu nunca vejo esse rapaz, ele não sai nunca. E ali na beira da piscina, enquanto eu me esforçava em vão pra parecer pelo menos 30% menos chapada do que eu estava, voltou pra mim a frase do David: aceitar a morte de quem está vivo. E aí lidar com essas aparições fantasmagóricas.

Fiz uma pergunta mais difícil pra ouvir ele falar um pouco e fiquei ali tentando puxar pela memória o que eu lembrava da vida dele: algumas viagens, algumas cidades, alguns planos para o futuro e o resto é mais uma colagem de mãos, pernas, nuca e cabelo. É uma sensação completamente diferente de enterrar uma pessoa com quem você passou anos, ainda que esse desaparecimento da voz funcione do mesmo jeito. Do outro eu lembro de tudo: os medos, os segredos, os sonhos, o posicionamento exato das tatuagens.

O retorno da primeira voz me desperta curiosidade, o da segunda me dá calafrios, apesar de doer bem mais.

trampolim

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All over the place

De novo: estamos (eu e Alice, sempre) mais por aí do que por aqui. Enquanto eu não tomo jeito e monto um site/portfólio, esses são os textos espalhados pela interwebs, por assunto. Enjoy!

Sobre livros e afins no blog da Guarda Chuva

Sobre filmes e pop culture na Noo Mag

Sobre Feminismo e Girl Power no Modices, da Carla Lemos

Sobre culinária e DIYs da Revista Capitolina

rory.crack


Cataclisma (2)

Quinta-feira, onze da noite. Sinto fome e frio e preguiça de comer ou me cobrir. Por força do hábito, zapeio. O US Open até que está legal, mas o percentual de gordura combinado da americana e da ucraniana me deixa um pouco desconfortável com o estado atual das minhas coxas. Futebol, passo. “Os maiores desastres naturais” no NatGeo. Now we’re talking. Você sabe a quantas bombas atômicas equivaleu a grande explosão do Krakatoa? (Também não, tava distraída). Ainda assim, repita comigo: KRA-KA-TO-A. Belo nome para um bichinho de estimação. Apelido: Krak. A grande erupção aconteceu em 1883, isso eu pesquei. Olho para a foto em preto e branco dos exploradores europeus que habitavam a ilha e fico imaginando eu e você, jovens escritores do século XIX em uma aventura pelos trópicos. Você de fraque e ceroulas e eu com aqueles vestidos imensos com mil camadas, bebendo e fumando e escrevendo e vigiando o vulcão.

O fim chegaria numa noite agradável de agosto, durante um dos nossos habituais passeios pela praia. (Temos isso de preferir a praia durante a noite). Tudo começa com o silêncio. Depois os bichos entram numa espécie de euforia ou transe coletivo, e parecem acordar todos ao mesmo tempo. Chapados de amor e ópio, eu e você apenas nos abraçamos e observamos o horizonte. Até que ela surge, a primeira bola de fogo, imensa. E com ela o ruído mais alto da história. Os nativos correm prum lado e pro outro, organizando às pressas algum tipo de ritual. Nossos companheiros europeus se dividem entre os que rezam e os catatônicos. Eu e você somos os únicos que sorrimos. Esperamos a vida inteira por este momento. “Vamos virar pedra”, você diz, e eu tenho certeza de que essa foi a declaração de amor mais bonita que alguém já fez. Penso em todos os casais eternizados lado a lado em Pompeia e enfio as mãos por dentro da sua camisa. Você sabe o que acontece com o corpo humano quando engolido por lava? (Também não, estava distraída de novo).

Eu e você, no entanto, primeiro nos beijamos. Depois sentimos nossos corpos formigarem e coçarem um pouco, até ficarem leves, muito leves. E então foi ficando cada vez mais difícil de se mexer, e eu senti os primeiros fios do seu cabelo endurecerem sobre o meu rosto. Só tive tempo de deslocar a mão direita uns quinze centímetros pra cima, pra poder passar os próximos cento e trinta e um anos com aquela sensação de onde o seu cabelo encontra com a sua nuca.

Krakatoa explosion


Cataclisma (1)

Fui dormir ardendo de febre, inveja e mais uma horda de sentimentos ruins. Acordei de frente para um gramado lindo, verdíssimo, que dava para uma casa branca e retangular, como uma caixa de sapatos futurista. Janelas enormes, nenhum telhado – linda. Conversávamos: eu, mamãe, Mariana e sua mãe. Estávamos apresentando nossas mães, pois sabíamos que se dariam super bem. Enquanto elas falavam da casa e reclamavam dos respectivos segundos maridos, nós duas olhávamos para o céu. Uma nuvem muito cinza se aproximava, vinda da linha do horizonte, cobrindo uma fatia bem grande do céu, que até então estava azulzinho. Passaram dois aviões pequenos, um bimotor e um jato, ambos na direção da nuvem macabra, e eu disse: “Adoro quando o avião desaparece assim no meio das nuvens.” No instante em que foram engolidos pela massa escura, uma bola de fogo coloriu o céu, e eu sabia que o menorzinho havia explodido, e que o segundo cairia. Avisei Mariana e as mães: “O outro vai cair pra cá”, e de fato não demorou até que o jato maior começasse a rodopiar a ermo, vindo em nossa direção. Fiz sinal para que andássemos um pouco para trás, na direção da casa. Então paramos e observamos. Depois de passar de raspão por um prédio mais alto, o segundo avião finalmente se chocou contra o asfalto, aos nossos pés. Não explodiu, mas se despedaçou todinho. Sugeri então que fôssemos ao hospital oferecer nossos serviços como voluntárias, já que haveria muitos feridos.

Preciso inventar um nome pra essa sensação: a de observar um avião que cai. Somos íntimas já, acho que a primeira vez foi em 2006. Não é só medo, e também não é só adrenalina ou instinto de sobreviência. Existe em algum lugar a satisfação da profecia cumprida, de estar por dentro de um segredo que ninguém mais conhece. Meu apocalipse pessoal.

dark.cloud


Química

Sou uma vampira. Personagem de um conto fantástico. Heroína de uma trama pós futurista. Quando estávamos juntos eu não tinha muita certeza se pintava o cabelo de cores absurdas porque gostava ou se era pra te afrontar. Talvez um misto dos dois. Mas também, não é pra perturbar algum tipo de ordem que a gente pinta o cabelo de verde at all? Sempre me espanta que o mundo seja tão bem dividido entre pessoas que vestem um personagem e pessoas que vestem panos que cobrem o corpo. Pouco importam os outros na verdade. Terça-feira, meia noite, chego em casa pós social intenso no boteco do momento. Todas as outras garotas vão tirar a maquiagem e cair na cama. Eu tenho mechas azul-esverdeadas emoldurando meu rosto, minha pele zero bronzeada faz gritarem os olhos vermelhos e essa combinação química auto-infligida me deixa com uma áurea meio animalesca. Perco a conta de quantos minutos fico encarando essa criatura no espelho.

Às vezes nem eu acredito em mim.

woods


Um trechinho d’A Praia

[estou naquela empreitada eterna e complicada de escrever um romance, e aí posto menos aqui. daí que hoje achei que esse trechinho estava meio inteiro, então vou dar spoiler]

***

Assim que passou a onda de tudo que eu tinha tomado naquela noite, a aparente calma com que havia lidado com toda a situação começou a passar junto. Nunca tinha tido uma crise de pânico, mas já havia presenciado algumas e sabia que era só uma questão de tempo. Já estava flertando com essa crise há séculos mesmo; que viesse. Agora tinha motivos mais que de sobra. Ficaria paradinha ali esperando que ela chegasse. O lance é que eu nunca fui de me entregar a essas coisas. Tive um princípio de bad trip uma vez e fiz o diabo pra não surtar. E não surtei. Gosto muito de estar no controle. E aí veio a ideia. Precisava correr, e precisava correr pra praia, pra a única praia que importava, o único lugar capaz de entender e quem sabe aplacar o desespero daquele dia. E correr foi o que fiz. Em menos de cinco minutos finquei meus pezinhos lambuzados de chão de festa na areia um tanto hostil da praia das conchas. Repassei rapidamente as cenas da noite anterior, o encontro inesperado com R., apenas 24h antes e tantas certezas arruinadas, seus caquinhos menores que as migalhas de concha que compõem o tapete áspero que cobre a areia da praia.

Dei um meio rodopio e caí estatelada e propositalmente na areia. Sabia que o vigia estava me espiando da guarita, o mesmo vigia que já havia presenciado tantos mergulhos felizes de calcinha e sutiã depois da balada, o mesmo vigia que na noite anterior havia flagrado o beijo roubado de R., o mesmo vigia que não fazia a menor ideia do meu drama particular – ou sabia – a essa altura o Rio de Janeiro inteiro já devia estar comentando. As socialites de Vitória então vão ter assunto pra dois anos. Pobre menina rica abandonada no altar faz a louca e não cancela a festa de casamento. Bebe até cair. E depois se mata, acrescentei em voz alta. É isso.

Meio que rolei e meio que rastejei até a água. Já estava tremendo de frio antes de entrar em contato com o mar, e depois do primeiro mergulho já não sentia mais nada. Em dias de ressaca braba o mar gelado de Guarapari sempre me salvava. Hoje eu queria o contrário. Dizem que dá pra chegar à nado na Praia da Cerca. Não neste estado, pensei. Dei uma última olhada pras casas tão familiares à minha volta, pensei na minha casa, na nossa casa. A razão de toda essa tragédia, na verdade. A casa na praia. Eu já tinha dito mais de uma vez que quando morresse queria as minhas cinzas espalhadas aqui. Vou facilitar pra geral.

E comecei a nadar.

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Ainda em copacabana

Chapada dentro de um táxi em direção ao Leme numa quinta-feira à noite, a sensação que tenho é a de ser uma senhora agarrada aos últimos suspiros de uma idade que já não tem mais. Chove muito em julho e eu estou embrulhada numa pashmina, símbolo da senhorice descolada carioca. A imagem que me vem é a da minha tia saindo do cinema e indo tomar um vinho com as amigas. Não estou achando a minha cena deprimente, longe disso. Há um certo orgulho em participar dessa resistência. Todas as minhas melhores amigas estão na rua a essa  altura de hoje, tenho certeza. Tentando. Tentando nem sei o quê mais. Insistindo pra ser feliz, I guess. E como temos sido, aos trancos e barrancos, jovens nem tão mais jovens assim, felizes.

 

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