rituais

Alice sempre foi afeiçoada a rituais. Sempre foi capaz de transformar as tarefas mais simples em momentos especiais, sagrados quem sabe, nem que fosse só para ela. Tal tipo de filme deve ser assistido no horário X, acompanhado da comida Y e da bebida Z. O primeiro cigarro do dia tem que ser acompanhado de música que emociona – e só se for ao ar livre. Tem gente que chama isso de distúrbio obsessivo compulsivo. Alice prefere ritual.

Daí que no último reveillon Alice foi convencida de ir para a Bahia. Sim, para a Bahia, muito possivelmente porque ninguém apostaria que ela fizesse isso. Se tem algo de que Alice gosta mais do que ritualizar bobagens, esse algo é confundir as expectativas alheias. Se acham que ela vai passar com a família, Alice se joga num avião para a Bahia – mesmo detestando axé. Mas esqueçamos a Bahia, que é só contexto, desculpa para contar um pouco mais de Alice.

O que importa dessa viagem, além do descobrimento do umbu – e da umburosca [que vem a ser uma caipivodka de umbu] – é que Alice não resistiu à famigerada fitinha do Nosso senhor do Bonfim. Nunca resistiu, na verdade. Desde a infância, sempre que uma estourava (rasgava, esfacelava, caía), dava um jeito de arranjar outra. Eram muitos desejos; e ela gostava do ritual. (Tinha a impressão, inclusive, de que era a única criança que pensava com afinco nos pedidos da hora de soprar as velas do bolo de aniversário).

E lá estava Alice mais ma vez, prestes a amarrar mais três sonhos no pulso esquerdo, o qual, coincidência ou não, ela percebeu outro dia, é o mesmo que coloca debaixo do travesseiro quando vira de lado para dormir. Pensou com o afinco e a seriedade de sempre. Quando criança, pedia sempre coisas bem palpáveis: o castelo da Barbie, uma scooter, uma viagem à Disney. Tudo se realizava, parecia muito fácil. Difícil mesmo era o que estava prestes a pedir.

Para aqueles que não são muito chegados a rituais, explico: são três nós, três pedidos. A cada nó, um desejo. Alice fechou os olhos e sussurrou, pausadamente, para não confundir o cosmos: (1) eu quero encontrar um novo amor; (2) que me ame; (3) e que eu ame de volta.

*** continua

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

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