Rituais (continuação)

O amor é uma escolha – Alice agora sabe. Always this ridiculous obssesion with love, grita a voz em off no Moulin Rouge de Baz Luhrman. Sim, essa obsessão ridícula com o amor – sempre. Alice vive disso. Antes de apelar para a pulseirinha do Bonfim, ela havia dito eu te amo sem ter lá muita certeza do que estava fazendo e agora estava certa de que havia sido punida por isso. Enfiou na cabeça que tudo tinha desandado depois daquilo e que, para não machucar mais ninguém, só se permitiria estar com alguém de novo se tivesse certeza absoluta. E tinha que ser rápido, rasteiro e fulminante, como nos filmes. A pessoa que vai mudar a sua vida pra sempre. Sempre, sempre, sempre essa maldita palavra. O divórcio já é a coisa mais banal do mundo e Alice desejando desesperadamente sentir o corpo inteiro dizer “pronto, acabou, pode parar de procurar”.

Dessa decisão se passaram quase dois anos. Começou procurando em livrarias, locadoras de vídeo – os clichês. Um antigo professor de literatura jurava que havia conhecido a (ex)mulher indicando um filme numa locadora. Alice ruminava essa história. Se tivesse colocado no papel todas as versões que escreveu em pensamento, dava um romance bem melhor que este. A biblioteca da universidade, os cafés preferidos, os cinemas – nada. Ninguém lendo seu livro preferido ao pôr-do-sol na praia do Leblon, pedindo o mesmo drink no balcão do bar, esticando o braço para pegar o mesmo Malbec na prateleira do Zona Sul. Todos os dias enquanto escolhia a roupa que iria usar – outro ritual que Alice adora, pois que veste um personagem por dia – imaginava se seria com aquela roupa que o conheceria.

Enganou-se duas vezes, culpa daquele nó na boca do estômago que os desavisados costumam chamar de borboletas. Alice, inclusive, nunca gostou de borboletas. São insetos e, assim como todos os outros insetos, desnecessários. Rebatizaria a expressão de morcegos no estômago, caso um dia lhe fosse concedida essa honra. Mais de acordo com os hábitos notívagos dessa sensação horrorosa. Serviu pelo menos pra que Alice entendesse que esse nó não é amor. Ansiedade também não. É, no máximo – e com o perdão da rima – tesão.

E voltamos à estaca zero.

(continua…)

Anúncios

Sobre L.

sou desesperadamente alice Ver todos os artigos de L.

4 respostas para “Rituais (continuação)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: