Rituais (fim)

Na verdade nem tanto. Começamos este terceiro capítulo – o último desta primeira história de Alice (há muitas mais) – com a nossa heroína sentada na beira da cama, insone no meio da madrugada. Ao seu lado dorme “o novo amor”, que “a ama”. Sim, ela o encontrou, eu não contei? Talvez o mais correto seja dizer que eles foram encontrados. Importa mesmo que não foi em nenhum dos lugares em que Alice procurou.

Mas voltemos ao presente da ação.

Sentada na beira da cama, Alice encara a pulseirinha. Dois já foram, falta um. É um novo amor? É – estão juntos, Alice está feliz. É um novo amor que a ama? Sim, ele já disse que sim. É um novo amor que a ama e a quem Alice ama de volta?

Está aí a razão de toda a falta de sono. Ama? Será que ama? Daquele jeito que havia se proposto no início de todo esse imbróglio? Não sabe.

Mas Alice às vezes tem uns surtos metodológicos. Talvez num universo paralelo seja professora acadêmica e não bailarina. Pegou o bloquinho que dorme ao seu lado, na mesinha de cabeceira, e pôs-se a listar e checar. O sexo é bom? Check. Gosto da companhia dele? Check. As conversas são boas? Check. Ele antecipa as minhas vontades? Check. Vocês conhecem a lista. Só que ao lado de um dos itens era impossível rabiscar aquele pequenino e inocente “v”. É pra sempre – é com ele que eu quero passar o resto da minha vida?

Era com ele que queria passar a próxima semana. O próximo mês. O próximo ano. Ele estava presente em algumas viagens que ela imaginava fazer. Alice espiou a lista mais uma vez; todas aquelas categorias haviam sido imaginadas por ela. E se foram imaginadas por ela, poderiam facilmente ser outras, bastava reescrevê-las. Alice fez melhor. Fez um ritual.

Foi até a sala e acendeu uma vela; rasgou o pedacinho de folha onde estava a categoria-problema e deixou o papel queimar. Enquanto sentia o cheiro da fumaça – Alice adora cheiro de queimado (deve ser porque cheira a mudança) – mordeu forte a já esquálida pulseirinha do senhor do bonfim, que desfaleceu. Ela já cumprira seu papel. Alice virou a folha do bloquinho e escreveu:

“São 4:12 da manhã e eu te amo agora.”

Voltou para o quarto e colocou o bloquinho na outra mesinha de cabeceira. Ali – e só ali – naquele insignificante pedaço de papel, o amor é eterno. Ou até o próximo incêndio.

Anúncios

Sobre L.

sou desesperadamente alice Ver todos os artigos de L.

Uma resposta para “Rituais (fim)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: