Roubando vidas

Eu não entendo muito bem por que, mas saímos todo sábado à noite pra jantar em um restaurante fino – minha mãe, meu pai e eu. Não entendo o que compele essas pessoas a passar por todo o ritual chato de escolher um lugar, fazer a reserva, vestir uma roupa apropriada, gastar uma puta grana (e quando eu digo puta grana vocês podem imaginar muito dinheiro mesmo, porque eu nunca vi duas pessoas comerem tanto). Eu jamais me importaria com essas coisas. Quer dizer, não me importaria se coubesse a mim não me importar. Ter 14 anos faz de mim uma mera espectadora. Na grande maioria das ocasiões, não há o que celebrar – e quando há, isso só significa que num determinado momento da noite algum garçom meticulosamente engravatado vai aparecer com o bolo “surpresa”. Mas pior do que não ter o que comemorar é não ter sobre o que conversar.

Pelo menos em casa podemos dar cabo ao silêncio sepulcral que se instala na mesa de jantar depois do habitual “como foi seu dia” comendo mais rápido e, no caso dos meus pais obesos, de maneira ainda mais feroz e nojenta. Depois é só se jogar na frente da TV de 52 polegadas.

Mas nos restaurantes não. Nos restaurantes nós somos forçados a nos encarar, esperando que o garçom chegue e ponha fim ao silêncio constrangedor. Só que mesmo a presença dele não significa que a coisa vá ficar menos entediante. Minha mãe discorrerá monologicamente sobre o “menu”, enfatizando como os pratos estão carentes daquele “segredinho” que só ela conhece, porque foi passado a ela por sua mãe, que aprendeu com sua avó e….bem, você me entende. Nesse momento eu respiro fundo, silencio o grito de “Então o que diabos nós estamos fazendo aqui?” e simplesmente sorrio sarcasticamente, imaginando como seria divertido se eu realmente tivesse coragem de fazer isso. Em todo caso, já é prazer suficiente olhar nos olhos dela e saber que esse segredo é só meu; que ela acha que estou rindo porque concordo com o que diz. Por fim, minha mãe termina seu discurso com uma explicação meticulosa sobre como se faz o tal prato “da maneira tradicional”, sempre salivando muito. Quando ela termina é o meu pai quem começa um monólogo, desta vez sobre a carta de vinhos. Primeiro faz cara de desdém e depois comenta o quanto ela não combina com o menu do restaurante. Depois procede a chamar novamente o garçom e perguntar “se não há nada de especial guardado na adega, algo que não conste na carta”. É difícil explicar o tamanho da vergonha que sinto nesse momento. Quem ele pensa que é? Será que ele se acha realmente tão melhor que o resto do mundo, a ponto de merecer uma garrafa especial? Ele não passa de um zé ninguém que um dia tirou a sorte grande. Não fosse o bilhete premiado, teria gastado o pouco que tinha em cachaça. Agora degusta vinhos especiais. Eu não mereço isso.

Enquanto esse teatro bizarro se desenrola, eu sento quieta, fingindo estar interessada no rótulo do que quer que seja que tenha escolhido para beber. Já decorei os valores nutricionais de todos os tipos de refrigerante que você consiga imaginar, pode perguntar. Light, diet e normal. Também pode me tomar os valores diários indicados de cada substância. Mas não se preocupe, não vou perturbá-lo com essas coisas.

Além do mais, descobri uma ocupação muito mais interessante para me manter distraída enquanto os minutos se arrastam, algo para preencher os espaços em branco da minha juventude, enquanto ainda não posso deixar isso tudo pra trás. Enquanto não posso e não consigo abandonar esses indivíduos estranhos a quem aprendi a amar, só porque são meus pais. Quer dizer, eu acho que os amo. Não dá pra ter certeza. Meus pais sempre foram bacanas comigo – me levaram pra passear, pra viajar, deram presentes e toda essa ladainha. Mas eu não me lembro dos momentos de afeto. Não me lembro de nenhum momento em que eles tivessem me enxergado. Percebido que sou diferente. Lembro da ostentação, das tardes no shopping de mãos dadas com a babá enquanto minha mãe renovava pela terceira vez no ano seu guarda-roupa horripilante. E comprava pra mim todas aqueles vestidos que eu nunca usei. Só pra exemplificar, eu parei de tentar conversar sobre as coisas que gosto com os meus pais no dia em que mamãe disse que Shakespeare era ultrapassado e me presenteou com um livro intitulado Coisa de menina: um guia de sobrevivência para a adolescente moderna. A capa era rosa, diga-se de passagem.

E eu sei que a esta altura você está pensando “pobre menina rica incompreendida”,­ e ponderando se deve largar a minha história por aqui, antes que se aborreça. A escolha é sua, no fim das contas. Mas se todos os livros que li escondido enquanto deveria estar “com a família assistindo a novela” me ensinaram alguma coisa, é que muitas vezes as histórias mais banais dão os maiores best-sellers. É o jeito de contar.

Pois bem. Voltemos ao que descobri. Descobri que posso pegar emprestada, sem pedir permissão, a vida alheia. Enquanto sou obrigada a navegar meio que sem rumo por essa vida de ansiedades colegiais e refeições silenciosas, invento histórias para desconhecidos. Roubo suas vidas e os transformo em meus personagens. Só não estava preparada para a reviravolta que estava prestes a se instaurar.

Enquanto meu pai concedia mais um de seus longuíssimos discursos sobre a produção do vinho francês, meus olhos percorriam o salão em busca de novas vítimas. Era mestre em inventar brigas para casais de meia idade. Mas eles – os olhos – foram repousar em um lugar inusitado. E junto com eles o meu estômago, os pelos da minha nuca e o meu coração. Foram todos repousar nos cabelos dourados e escorridos de uma menina quase da minha idade, sentada numa mesa às 11 horas. Trocamos alguns olhares confusos e ela fez sinal para que nos encontrássemos na chapelaria. Eu só queria correr meus dedos pelos seus cabelos. E assim o fiz. Protegida pela barreira de casacos de lã, deixei pra lá o medo. Até que minha mãe me despertou.

“Você mal encostou na comida, Alice.”

Mentirosa, é claro que encostei. Até organizei o penne em formato de castelo. Só não comi. E quem conseguiria, depois de três aperitivos diferentes. A ideia de que posso me transformar nos meus pais me aterroriza – por isso como pouco, só de precaução. De qualquer forma, assim que a sobremesa chegar eles irão se distrair novamente, e eu terei tempo para fugir com a garota de cabelos dourados.

Só que então vejo uma outra garota, mais velha, entrar no restaurante. Ouço sua conversa com a hostess.

“Quantas pessoas, senhorita?”

“Só eu. Perto da janela, se der.”

Ela está só e em silêncio, como eu, mas tão mais feliz. É notável – tem aquele tipo de sorriso que não se finge, o tipo de sorriso que não se vê nos lábios, mas nos olhos. Eles brilham enquanto ela inspeciona o lugar. Não é daqui, dá pra ver pelo sotaque – e pelo olhar mais leve que só aqueles que estão viajando possuem. Depois do primeiro gole de vinho, ela tira da bolsa uma caderneta e começa a rabiscar algumas palavras. Perfeito. Eu não quero inventar uma história pra ela. Quero a dela. Quero ser essa jovem bonita que viaja sozinha e de repente me dou conta de que posso. Pego o primeiro pedaço de papel que aparece na minha frente (um guardanapo) e tiro a caneta da bolsa da minha mãe sem que ela nem note (é que chegou o Tiramissu). Fixo meus olhos na viajante e começo:

Centenas de velas enchem de sombras avermelhadas a Cantina Italiana onde janto sozinha. É maluquice pensar que me dissolvi no mundo? Milhares de quilômetros me separam do país onde nasci e sinto como se estivesse na esquina de casa. Estrangeira e local ao mesmo tempo. Passo pelos lugares e os carrego comigo quando sigo viagem. Se eles pesam na bagagem? Nunca. Quanto mais viajo, mais leve me sinto. Memórias são quase voláteis se você não se faz prisioneira delas. E a próxima memória a ser feita me parece sempre melhor que a última que guardei.

“Alice, toma pelo menos o sorvete.”

Ah sim, o sorvete eu posso tomar. Cuidadosamente, dobro o guardanapo e o guardo no bolso. Saboreio o sorvete enquanto observo a minha estrangeira. Nossos olhares finalmente se cruzam e ela sorri pra mim. Foi a primeira a me enxergar.

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Sobre L.

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