Confissão

Alice tem mania de roubar meus cadernos para se confessar. Ajuda o fato de que não designo cadernos para fins específicos. Ficam espalhados pela casa, dezenas deles. Listas de compras e de afazeres dividindo espaço com o estruturalismo francês, com Silviano e com os desesperos de Alice. Se morrer escritora famosa, os biógrafos irão se deleitar. Já vislumbro o volume póstumo, com o primeiro poema intitulado: “Protocolo Tim”. Passemos ao desabafo de Alice:

Sabe o que não me deixa desistir? O que me faz voltar de novo e de novo àquele mês de julho e ao seu perfil no facebook? Não foi o beijo acalorado no club – do qual nem me lembro -, nem a noite no seu quarto. Lembro mais do caminho de volta ao hotel. Fazer o walk of shame em Londres pode agora sair da minha lista de afazeres antes dos trinta. O que não me deixa tirar você da cabeça, o que me impede de cair sem olhar pra trás no abismo e no corpo de um amor que desejo tanto, é a imagem do seu rosto me dando um beijo desconcertado antes que eu saísse daquele trem. O silêncio que dividimos por umas três estações, esse meio beijo e as palavras fatais: “você volta antes de ir pra casa?”. “Volto,” respondi. Volto pra você, pensei. Volto pra casa – porque aqui é a minha casa. Aqui onde mora a minha alma. E enquanto meu coração se recusa a sentir o que sentiu nesses cinco minutos de despedida, eu não consigo desenlaçar meus dedinhos dos seus, daquele trem, que deve estar até hoje rodando na Central Line. E eu ali, indefesa, me apaixonando a cada três estações.

Fecho o caderno e encaro Alice com aflição. Ela me sorri de canto de boca. “Qual era o nome dele mesmo?”

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

2 respostas para “Confissão

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