Sobre grampos e ausências

Quando tinha uns quatro anos e aquele cabelão bonito de criança, liso e cacheado nas postas, Alice acordou um dia e requisitou uma ida ao salão de beleza. Queria cortar o cabelo “assim ó”, e sinalizou a altura do chanel levando as pequeninas mãos à altura do queixo. E assim foi feito. Depois disso, foram poucas as vezes em que o cabelo de Alice passou novamente dos ombros. Quando tinha oito anos, cortou tudo – joãozinho – e foi confundida com um aluno que havia saído do colégio no ano anterior. Estava de costas para o local onde se formavam as filas na hora da entrada e ouviu um amigo chamar de longe “Danieeel, você voltou!” Não deu muita bola. Anos depois, ao repetir o corte, já tinha curvas o suficiente para não ser confundida com um rapaz, e até o namorado gostou.

Mas isso tudo foi pra dizer que Alice, em decorrência da afinidade com a tesoura e do desapego pelas madeixas, sempre foi viciada em grampos. Não é tanto um vício quanto uma necessidade. Experimente estudar, praticar esportes, sair cedo para aula, etc com um cabelo curto e quase sempre repicado. Os grampos são imprescindíveis. Muitos deles. Centenas deles. E os grampos – assim como as canetas bic, os isqueiros e os pretendentes do sexo oposto – pertencem àquela família de objetos aos quais você só dá valor quando tem muito poucos ou quase nenhum. Quando se compra uma caixinha nova, que vem com uns cem grampos, gasta-se a vontade. Alice os espalha por todos os lados, larga-os na academia, na casa de amigas, nos cantos de sua própria casa. E foi por isso que eu comecei a contar essa história.

Numa das primeiras vezes em que a mãe de Alice foi visitá-la em seu novo apartamento, ao achar um grampo perdido na sala, ela confessou que sentia muita falta de encontrar esses pequenos lembretes de sua presença  pela casa. A ausência da filha era sentida na falta de grampos (e de sapatos, eu confidenciaria) espalhados pela sala. Desde então, toda vez que vai à casa da mãe, Alice faz questão de largar grampos em cantos estratégicos da casa, para que recolhendo-os, como João e Maria, sua mãe possa trilhar o caminha de volta para ela.

Outro dia, Alice percebeu que o namorado resgatava um grampo caído quase debaixo do sofá. Era ele quem os cataria daqui pra frente.

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

4 respostas para “Sobre grampos e ausências

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