Macadâmia, meu amor

O bafo quente e úmido que acompanha as manhãs de verão no Rio de Janeiro deixava Alice ainda mais confusa. Não esperava que ele fosse ligar e, ainda que seu corpo mandasse todos os sinais contrários, estava inclusive um pouco chateada que ele o tivesse feito. Alice superava rápido demais os términos – tão rápido que costumavam desconfiar que ela nunca tivesse amado de verdade. Mas tinha sim; ela só era muito organizada. Quando terminava um relacionamento, enchia a cabeça com milhões de outros projetos, ia ver todos os amigos que havia negligenciado durante os meses de paixão reclusa e, quando se dava conta, outro interesse já dividia espaço com as lembranças do anterior. Mas ele não estava passando. Não importava quantos jantares organizasse e quantos brunchs tomasse com as amigas. Ele não estava passando e agora resolvera passar em seu apartamento para “uma conversa”. Quando deu por si, Alice já estava metida no vestido que ele mais gostava e se encontrava sentada na pontinha do sofá, olhando fixamente para o interfone. À esta altura acho que já está claro que Alice queria mesmo era reatar de uma vez aquele namoro sem que nenhuma palavra precisasse ser dita, como acontece em todas as melhores reconciliações. Mas ela não havia ficado nem um centavo mais pobre naqueles três meses, e nem ele havia enriquecido, até onde sabia, o que deixava o problema dos dois estacionado exatamente no mesmo lugar – a não ser que ele tivesse finalmente entendido que aquele não era um problema.

Quando enfim tocou o interfone, um plano havia se delineado na cabecinha adolescente de Alice. Não fazia essas coisas porque achava o amor extremamente descomplicado, mas havia se ferrado pela primeira vez e agora estava disposta a tentar todas aquelas besteirinhas que algumas amigas e todas as revistas femininas aconselham nessas situações. “Manda ele esperar aí em baixo”, disse ao porteiro, e desceu de vestido curto e nuca de fora.

Cumprimentou-o da maneira mais displicente que conseguiu e disse, abanando-se, que estava muito quente e que queria tomar um sorvete. “Um sorvete?” ele perguntou, confuso. “Aham, me leva pra tomar sorvete. Aí a gente vai conversando, pode ser?” Enquanto se afastavam da portaria, Alice ia se deleitando com a aparente confusão mental que se fazia visível na expressão outrora tão confiante de Pedro. Alice fez questão de iniciar inúmeros assuntos vazios, contar meia dúzia de histórias que ele provavelmente já conhecia e falar mais uns cinco minutos sobre amigos dela de quem ele nem gostava. Tudo isso para que chegassem ao destino sem que “o assunto” fosse discutido. Nesse meio tempo, passaram pela sorveteria onde Alice normalmente tomava uma uma casquinha sabor brownie, mas ela fez que não com a cabeça e apontou para a delicatessem que havia mais adiante. Era um teste. O potinho que desejava naquela manhã quente de verão era cinco vezes menor e cinco vezes mais caro do que o da sorveteria comum, e ela queria que ele não torcesse o nariz diante de tamanha futilidade. Foi até o freezer e retirou o pequenino pote. Quando chegaram ao caixa, ele o puxou delicadamente de suas mãos e, antes de entregá-lo à moça do caixa, examinou seu rótulo. “Eu nem sei o que é macadâmia,” ele disse com um  meio sorriso, enquanto tirava o dinheiro da carteira, “mas agora a gente vai pra sua casa provar”.  “É uma noz”, Alice respondeu. “E eu estava pensando em tomar ali na praça, porque o dia está tão bonito”. “Mas não tem colher, Alice.” “Você podia pedir uma de plástico ali na padaria”. Mas a padaria não quis fornecer a colher de plástico (o que na realidade nem era uma questão, porque Alice sabia que existia uma pequena espátula colada no fundo da tampa de seu caríssimo sorvete de macadâmia), mas ela havia se afeiçoado à ideia do teste.

Assim, diante da aparente falta de colher, Alice resolveu que era hora de ceder e deixá-lo falar. Voltaram ao apartamento e ela se sentou de frente para Pedro, com o sorvete numa mão, a colher na outra e um sorriso quase infantil. Saboreava o sorvete e a confusão em seus olhos. “Ahm, pode falar”. “Posso provar o sorvete primeiro?” Ela raspou o canto do pote e dali retirou uma colherada bem cheia e derretida, e levou-a até a boca do ex. “Muito bom”, ele disse, depois de alguns segundos em que o silêncio provocado pela mastigação finalmente permitiu que os dois se olhassem de verdade. “Mas agora me dá licença…”. Primeiro ele pegou o potinho da mão esquerda de Alice, e colocou-o no chão, ao lado do sofá. Depois retirou a colher de sua mão direita e a colocou dentro do potinho. E o sorvete de macadâmia ficou ali, fundindo junto com os corpos no calor de dezembro.

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

Uma resposta para “Macadâmia, meu amor

  • Bruno Mareto

    Quem são esses leitores que não fizeram comentário algum sobre esse doce de conto? Dá vontade de fazer como a Alice, comer com a Alice, ser a Alice. Tem macadâmia, suor e saliva na minha boca…

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