Táticas

“Diga a verdade e saia correndo”, dizia o ímã de geladeira que Alice havia comprado em uma de suas idas ao cinema para curar o mau humor (funciona muito melhor que Rivotril, inclusive, e os resultados são fantásticos se, além de assistir ao filme, o emburrado também comprar alguma coisa. Qualquer coisa, e por isso o ímã de geladeira). Alice se apaixonou pelo pequenino ítem de decoração porque a frase lhe caiu como uma luva. Sempre morrera de medo de dizer as coisas mais inconvenientes. Ela e todo o resto da humanidade.

Dentre as primeiras conversas sérias que Alice se lembrava de ter participado, estava uma sobre “guardar as coisas” que tivera com seu pai. Fazia pouco tempo que seus pais haviam se separado e ele lhe pediu que sentasse com ele num canto da cama para que conversassem. Alice ficou olhando a paisagem nova pela janela. Era a primeira vez que entrava naquele apartamento, na “casa nova de papai”, e ouviu um longo sermão sobre como fazia mal guardar as coisas dentro de si. “Então é isso que dói no peito”, Alice pensou. “Isso deixa a gente pesado”, disse o pai, adivinhando seus pensamentos. Ele queria saber se ela estava chateada por causa da separação. Não estava. Só não gostava muito de ficar longe da mãe nos finais de semana, o que acabou admitindo, pra se livrar do peso.

Desde essa lição, e principalmente depois de encontrar o ímã, Alice desenvolveu alguns métodos para não guardar a verdade só para si. Dizer a verdade e sair correndo era o seu  favorito. E eu digo literalmente. Experimente você: primeiro é preciso encurralar o indivíduo para quem a verdade se dirige (alguns fogem dela tanto quanto quem a guarda); quem gostar pode ensaiar algumas vezes em pensamento. Feito isso, é só disparar. Se a verdade for romântica, no estilo eu te amo, é justo que se espere alguns segundos, para que o ser amado possa resolver se te beija ou se sai correndo. Se for uma bomba, do tipo eu acho que a gente devia terminar ou mãe estou grávida, pernas pra que te quero.

E eu estou falando sério. Os problemas costumam diminuir uma média de 60% depois que são transformados em palavras e proferidos em voz alta. Experimente gritar EU NÃO SEI ORGANIZAR AS MINHAS FINANÇAS bem alto. Além de ser um alívio, é o início da solução. Bem ao estilo psicologia barata: “a primeira etapa para se livrar do vício é admiti-lo.”

Mas voltemos a Alice. Fazia um tempo que ela não encarava o ímã. Já estava ficando velho, logo teria que substitui-lo. Ficou ali encarando as letrinhas por um bom tempo. Sempre achara que essa era a melhor solução para verdades difíceis, e sabia que a tática era um tanto egoísta, mas isso nunca fora um problema. Hoje, refugiada na cozinha, em meio a espirros e lágrimas, Alice estava achando que o verdadeiro desafio seria dizer a verdade e não ir a lugar algum. Dizer a verdade e chocá-la no sofá da sala de estar.

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2 respostas para “Táticas

  • paulamaria

    Nem todo mundo quer se confrontar com “a realidade”. Tem gente que ainda prefere estagnar na “tudo tem dois lados” e sempre puxa a sardinha pro seu lado… Mas tá, sem divagar sobre mim. 🙂

  • Bruno Mareto

    Essa coisa de chocar é que me empata. Nem sempre sei ser mãe das minhas verdades; pai, quem sabe?, mas pai não choca, choca? Enfim, tenho prisão sincera de ventre, hemorróidas cloacais, e o melhor dos laxantes ou dilatadores de bacia é, sem dúvida, o vislumbre do abandono de menor. A tática que mais uso é outra, no entanto: escrevo. Escrevo em um daqueles cadernos filhos do primeiro, que você me deu. Escrevo, em silêncio, ou algum silêncio – alguma verdades precisam ser ninadas. Chocam todas ali, na cabeceira, quietas, lacradas, secretas.

    Um último pensamento, já que essa minha tática, reconheço, é falha: tenho pensado muito sobre esse poder da voz, da verbalização, sei lá quem é o responsável. O que sei é que os pensamentos e as palavras, que compartilham tantas coisas comuns (arquétipos?, conteúdos?, essências?, formatos?), têm densidades completamente diferentes. É coisa de 60%, mesmo. Tenho até treinado falar sozinho. E dá até medo de esvaziar inteiro.

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