Sonhando em português

Querido Tom,

Você foi o primeiro cara que eu beijei fora do país. Correção: você foi o primeiro cara que eu beijei na Europa; o primeiro cara que eu beijei fora do país foi aquele caipira de Linhares, numa noite quente quente quente e úmida, com cheiro de coqueiro molhado, num resort da Disney. O primeiro cara que me deu tesão – na Disney. Sempre achei isso o máximo. Com um pouco mais de coragem eu tinha perdido a virgindade na terra do Mickey Mouse. How post-modern of me.

Mas voltemos. Se não me falha a memória nós nos beijamos na terceira semana, salvo engano no meio de uma música do Hot Chip. Eu saí da balada fugida, metade porque estava muito louca e metade porque com todo aquele barulho a tarefa de entender o sotaque de vocês era um pouco mais difícil do que eu gostava de admitir. Uns três dias depois eu descobri que a garota mais legal de todo o dormitório tinha terminado um namoro longuíssimo porque estava apaixonada por você. E parecia que você gostava dela. Então talvez a gente só tenha acontecido porque você queria despertar ela da maior timidez do mundo. Não tinha problema nenhum – coloquei a culpa na bebida e nunca se falou no assunto. Nunca. Vocês namoraram, eu continuei na minha cruzada de só ficar com caras que não me interessassem emocionalmente. O meu so called projeto de libertação. Bonitos e fúteis – e você deixou de ser uma opção.

***

Nos esbarramos em uma biblioteca desconhecida. Nem aqui e nem aí. Você gostava de literatura não gostava? E era o único que conhecia o Brasil. Detalhes. Algo me diz que estamos mais velhos neste novo cenário, nesse arquétipo de biblioteca. Sentamos em poltronas confortáveis e conversamos horas a fio – se ao menos eu conseguisse lembrar. Acho que você escreve poemas (ah! eu também escrevo!). E como foi inesquecível aquele ano. Lembramos histórias mil, inclusive aquela proibida, e eu fico pensando porque porque porque diabos a gente deixou isso pra lá? Eu pergunto e eu respondo: porque eu sabia que ela seria a minha grande amiga, e eu podia escolher me apaixonar ou não por você. Eu sempre posso. A outra Alice, daquele filme, sempre diz (toda vez que eu assisto, quando há uma decisão muito importante a ser tomada): “There’s a moment, there’s always a moment, ‘I can do this, I can give in to this, or I can resist it.’”

E seguimos falando, falando sem parar. Da vida, dos amores, das viagens. Foi a conversa mais honesta que eu já tive em anos (e ainda assim é só uma sensação de conversa). Eu estava tão feliz em te ver. Justo você que é o que menos me escreve.  E daí eu me dei conta, depois que acordei, que nós já começamos uma amizade sabendo que qualquer romance estava fora de questão. O romance passou tão rápido que a gente nem reparou que havia tirado isso do caminho. Porque isso sempre precisa ser tirado do caminho, nunca duvide.

Hoje eu te deixei uma mensagem contando do sonho, mas será que você se lembra do nosso romance de uma noite? Será que a gente já resolveu isso num sonho seu? Tenho vergonha de perguntar. Só tenho coragem de escrever em português, porque em português você não entende, Tom. Nem se jogar no google translate. (será?). *joga o texto no google translate e vê no que dá*

Não, meu bem – acho que se você jogasse o texto no google translate ia acbar achando que eu tive um sonho erótico com você, um caipira e o Mickey Mouse. Interesting, but no.

Mas é louco isso, né? Eu posso ler as suas confissões, você não pode ler as minhas. Nunca saberemos se você sabe que foi o primeiro cara que eu beijei na Europa. A não ser que eu te conte. Conto pra todo mundo, mas não conto pra você.

A não ser que você aprenda a falar português.

Com carinho,

A.

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6 respostas para “Sonhando em português

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