Dúvida

Alice é louca com espelhos. Alice na verdade é quase como um peixe – encanta-se com a imagem refletida. Não por excesso de vaidade (talvez um pouco), mas porque acha incrível mesmo essa coisa de se enxergar, literalmente. Olhar pro espelho é muito mais fácil que olhar pra dentro. Daí decorre uma obsessão: quando descobre um espelho, Alice não consegue parar de se olhar. Por isso, quando chega num bar, faz sempre questão de sentar de costas caso haja algum, para não aborrecer as pessoas com sua distração narcisista.

Mas outro dia foi pega de surpresa. No dia D (d de despedida, d de desastre), quando finalmente a vontade de fazer xixi apertou, Alice entrou no familiar banheiro, e esperou em vão que o espelho refletisse seus cabelos mal cuidados e suas recém-adquiridas olheiras (você está com uma cara tão cansada, tinham dito um pouco antes). A parede e mais nada. O espelho, junto com a cama, as roupas, as louças e um pedaço considerável dela mesma haviam sido empacotados em caixas marrons, e estavam naquele momento desajeitadamente espalhados numa outra casa. Na casa nova.

Alice se assustou. Enquanto a vontade de fazer xixi apertava, ela fitava os azulejos. É muito estranha essa sensação. Todo dia quando entrava no banheiro, era pro espelho que olhava primeiro, talvez numa ânsia inconsciente de checar se ainda estava lá, se estava tudo bem. O reflexo no espelho é uma certeza ontológica. Existo, sou essa aí, não outra. E de repente toda essa insegurança. Depois que acontece a primeira vez, é inevitável um milésimo de segundo de dúvida. Alice foi ao banheiro umas cinco vezes essa noite, e em todas elas se procurou e não se achou.

No fim das contas, que bom. Talvez esteja aí a delícia de tudo. No talvez mesmo.

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

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