Sobre fofocas, selinhos e afins

Eu tenho um novo vício. E é desses bem feios, que convencionamos chamar de guilty pleasures nesses tempos de império do fútil. Estou irremediavelmente viciada na página de “populares” do instagram. Eu havia perdido o boom do twitter com a desculpa de que uma rede social já me tomava tempo demais, mas acabei perdendo também essa oportunidade de ter uma linha direta para dentro da vida das celebridades. Na verdade eu sempre gostei mais de ler as fofocas filtradas nos tablóides sensacionalistas – há algo no estilo idiota e repetitivo das reportagens que me hipnotiza. Foi só quando me rendi ao instagram que percebi o quanto podia ser legal investigar por conta própria.

Confissão feita, preciso dizer que um dos meus instagrams preferidos ultimamente é o da Paris Jackson, filha do falecido rei do pop. Paris é linda, mas não como a maioria das filhas de celebridades de Hollywood. Ela tem uma áurea rebelde, veste preto demais e mesmo com o rosto angelical fica claro que ela quer ser diferente. É tudo pose, believe me I know, mas eu sempre insisti que aos 13 anos é muito menos problemático a menina posar de rebelde e rasgar as calças jeans do que posar de santa e fazer luzes no cabelo. Quem quiser fazer uma retrospectiva na vida das minhas amigas de colégio vai constatar isso sem dificuldades.

O instagram da Paris me viciou porque ela está naquela fase em que meninos e meninas se reencontram depois de anos de guerra dos sexos no pátio do colégio. De repente eles não são mais chatos – de uma hora pra outra elas não são mais bobas. Da noite pro dia todo mundo começa a querer se abraçar muito, toda hora, quanto mais melhor, e as regras de convivência mudam – ter amigos do sexo oposto passa a ser legal e descolado. O resto é história: festas americanas são organizadas, casais começam a se formar e desformar na velocidade da luz, noites são viradas no mIRC, no icq, no MSN…

Mas eu comecei a escrever porque o carinho de Paris com os amigos em algumas fotos me fez lembrar de quando virou boato no meu colégio que um grupo de amigos da 8ª série tinha começado a se cumprimentar com selinhos. Eu tinha doze anos, e passei o dia inteiro pensando no assunto, sem ter muita certeza se julgava aquilo absolutamente impensável ou extremamente desejável. Na hora da saída, lá estavam eles, no mesmo banco de sempre (eram seis amigos, como em Dawson’s Creek, e aquilo era tão cool). Observei hipnotizada, até que o pai de uma das meninas buzinou do lado de fora do colégio, e o bedel fez sinal pra Natália. Natália era loura, muito branca, mas completamente diferente das milhares de descendentes de alemães e poloneses espalhadas pela minha cidade. Não tinha a mesma cara de boneca. Natália tinha cara de perigo, e na época era o meu ideal de beleza feminina, mesmo sendo tão pouco mais velha que eu. Ao ver o bedel fazendo sinal, levantou-se do banco onde estava sentada com os amigos, jogou a mochila nas costas e, muito naturalmente, apoiou uma das mãos no ombro de Felipe para lhe dar um beijo em meio a um murmúrio de tchau. Depois, repetiu o gesto com as outras duas meninas e dois meninos do grupo. Acho que meu coração perdeu uma ou duas batidas.

O meu entendimento do que era amor e amizade mudou completamente naquele dia. Mudou não, mais certo seria dizer que veio a ser. Várias coisas naquela cena me tocaram. O fato de Natália e Felipe serem um casal, e nem por isso se importarem que um ou o outro cumprimentasse os amigos daquela maneira. A falta de vergonha pura e simples, ou, melhor dizendo, a audácia em estabelecer as próprias regras de relacionamento (whatever works, como bem disse Woody Allen). A possibilidade de algum dia ter um grupo de amigos que eu amasse tanto, e de maneira tão livre.

Eu não sei o que foi feito dessas pessoas (os seis “garotos de Dawson’s Creek” eu continuo acompanhando nos sites de fofoca, e agora com ainda mais animosidade, já que Katie Holmes finalmente largou o marido maluco e Joey e Pacey podem finalmente acontecer na vida real), mas sei que cresci tendo aquele gesto como um certo ideal de relacionamento, e ao longo da adolescência amei meus amigos acima de tudo, fiz juras de amizade eterna e troquei selinhos com quem quis me beijar.

Nesse sentido, ser adulto é desamadurecer.

 

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

6 respostas para “Sobre fofocas, selinhos e afins

  • Ju

    Lu! Que engraçado você escrever sobre isso! Há alguns meses, eu comecei a pensar sobre essa coisa do beijo! Um belo dia eu me peguei com vontade de beijar meus amigos. Acho que essa linha de quem se beija/quando se beija/como se beija é tão tênue. Ou eu ando muito maluca. 🙂

  • L.

    não está maluca não – isso sempre esteve no meu radar. fica tudo tão mais complicado quando a gente cresce 😦

  • Ana Leticia

    Gostei muito do que li! Beijos

  • Paula Maria

    Já achei tabu por muito tempo. Depois desvairei a dar bitocas. Hoje não sei. As pessoas se fecham muito pra isso, é complicado. No fundo, não deveria. Amor é amor e o lance é o lance. No fundo, a gente sabe a diferença, sabe que não mistura. Por que tanta hesitação então?

  • Zé (o Zé mesmo :P)

    Eu beijo meus amigos na bochecha e depois dou um abraço. Alguns acham estranho, outros não. E isso na bochecha!

    Criamos muitos tabus e vivemos muito amarrados.

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