A casa

A casa respira só. Um organismo vivo e gigante na escuridão do que restou da Mata Atlântica de Guarapari. Todos que a ela pertencem estão longe, em outras cidades, outros jardins. A casa sente falta de seus humanos. Ela os assombra enquanto tentam encontrar sentido longe dali.  Encho a cara em outra varanda e posso sentir seus muros altos de pedra me vigiando, espreitando, regulando a quantidade de felicidade permitida longe de seus gramados impecáveis. Um a um os seus habitantes ocasionais começam a invadir toda e qualquer história que tente contar. Em que festas dançam meus primos? Em que camas dormem meus tios? O que sonham as crianças? O que deseja a essa altura minha avó? Fora de seu habitat natural parecem todos um tanto deslocados. Por costume, ou para desacelerar a respiração, prontifico-me a posicioná-los em seus locais favoritos. No canto esquerdo da mesa da varanda, de pé em frente ao balcão da churrasqueira, na espreguiçadeira de palha da varanda da copa. Na meia-lua rasinha da piscina, no chuveirão do jardim, no sofá da sala de TV. Num colchonete jogado na grama, bem no finzinho do dia. Findo o exercício, sinto que nos acalmamos, a casa e eu. Sabe como é: falta pouco pra começar o horário de verão, nossos pinheiros de plástico se agitam dentro de caixas mofadas no alto dos armários e em mim começa uma coceira que só passa depois que eu e ela compartilhamos o primeiro (o milésimo) céu de madrugada.

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

Uma resposta para “A casa

  • Leonardo Sposito

    Que lindo prim, tenho certeza que todoa compartilhamos do mesmo sentimento, faz muita falta realmente. Mas agora so nos resta organizar um fim de ano maravilhoso para matarmos as saudades. Amo todos, beijos!!!

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