exercício para um filme do kaufman e uma música do franz

A dor do fim, bem disse meu poeta-mentor, gosta de andar pra trás, de dor em dor, até que tenha contaminado todas as memórias da história que acaba. Would you erase me? Eu te apagaria, sim. Assim hipoteticamente. Por uma questão de rigor e exercício poético, eu te apagaria.

Aí o rio que eu chorei nas últimas semanas desaguaria de volta pra dentro de mim, você levantaria do meu colo com o rosto seco naquela fatídica segunda-feira de dezembro e as malditas palavras “eu te amo mas preciso ficar sozinho” viajariam serenas de volta pra sua boca, e você as engoliria.

Desconheceríamos Nova York, Santiago e Buenos Aires e devolveríamos para as prateleiras e corredores da Etna os móveis e as decorações que compramos juntos. As garrafas de vinho se encheriam e o prazer de ouvir o som estalado da primeira gota passando pelo bico da garrafa e caindo na taça voltaria a ser estranho pra mim.

Eu te desconvidaria pra morar junto comigo e a mancha de vinho na parede do meu quarto antigo desapareceria, junto com os roxos espalhados pelas suas mordidas no meu corpo. O caminhão de mudança faria o caminho inverso e estacionaria na Assunção. Até que no dia 10 de janeiro de uns anos atrás o céu devolveria o meu pedido mudo e desesperado de que por favor eu me apaixonasse por você.

Três dias antes os nossos amigos nos desapresentariam, e nós partiríamos como estranhos contentes, até que nos esbarrássemos por acaso na fila do metrô de superfície e você reconhecesse no arquear da minha sobrancelha aquela foto.

sunshine

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3 respostas para “exercício para um filme do kaufman e uma música do franz

  • Sal

    Todo meu respeito a quem se refere ao Kaufman, e não ao Gondry. =)

      • Sal

        Eu não gosto muito do Gondry. Acho que a acidez e o estilo cerebral do Kaufman faz uma química boa com o estilo adocicado dele, mas sozinho não funciona muito bem pra mim. Ontem mesmo fui ver o documentário dele sobre o Chomsky no “é tudo verdade”. E o Gondry, indeciso entre fazer um documentário intimista sobre a vida do Chomsky ou explorar suas ideias, acabou fracassando em ambos.

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