Um trechinho d’A Praia

[estou naquela empreitada eterna e complicada de escrever um romance, e aí posto menos aqui. daí que hoje achei que esse trechinho estava meio inteiro, então vou dar spoiler]

***

Assim que passou a onda de tudo que eu tinha tomado naquela noite, a aparente calma com que havia lidado com toda a situação começou a passar junto. Nunca tinha tido uma crise de pânico, mas já havia presenciado algumas e sabia que era só uma questão de tempo. Já estava flertando com essa crise há séculos mesmo; que viesse. Agora tinha motivos mais que de sobra. Ficaria paradinha ali esperando que ela chegasse. O lance é que eu nunca fui de me entregar a essas coisas. Tive um princípio de bad trip uma vez e fiz o diabo pra não surtar. E não surtei. Gosto muito de estar no controle. E aí veio a ideia. Precisava correr, e precisava correr pra praia, pra a única praia que importava, o único lugar capaz de entender e quem sabe aplacar o desespero daquele dia. E correr foi o que fiz. Em menos de cinco minutos finquei meus pezinhos lambuzados de chão de festa na areia um tanto hostil da praia das conchas. Repassei rapidamente as cenas da noite anterior, o encontro inesperado com R., apenas 24h antes e tantas certezas arruinadas, seus caquinhos menores que as migalhas de concha que compõem o tapete áspero que cobre a areia da praia.

Dei um meio rodopio e caí estatelada e propositalmente na areia. Sabia que o vigia estava me espiando da guarita, o mesmo vigia que já havia presenciado tantos mergulhos felizes de calcinha e sutiã depois da balada, o mesmo vigia que na noite anterior havia flagrado o beijo roubado de R., o mesmo vigia que não fazia a menor ideia do meu drama particular – ou sabia – a essa altura o Rio de Janeiro inteiro já devia estar comentando. As socialites de Vitória então vão ter assunto pra dois anos. Pobre menina rica abandonada no altar faz a louca e não cancela a festa de casamento. Bebe até cair. E depois se mata, acrescentei em voz alta. É isso.

Meio que rolei e meio que rastejei até a água. Já estava tremendo de frio antes de entrar em contato com o mar, e depois do primeiro mergulho já não sentia mais nada. Em dias de ressaca braba o mar gelado de Guarapari sempre me salvava. Hoje eu queria o contrário. Dizem que dá pra chegar à nado na Praia da Cerca. Não neste estado, pensei. Dei uma última olhada pras casas tão familiares à minha volta, pensei na minha casa, na nossa casa. A razão de toda essa tragédia, na verdade. A casa na praia. Eu já tinha dito mais de uma vez que quando morresse queria as minhas cinzas espalhadas aqui. Vou facilitar pra geral.

E comecei a nadar.

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

6 respostas para “Um trechinho d’A Praia

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