Cataclisma (2)

Quinta-feira, onze da noite. Sinto fome e frio e preguiça de comer ou me cobrir. Por força do hábito, zapeio. O US Open até que está legal, mas o percentual de gordura combinado da americana e da ucraniana me deixa um pouco desconfortável com o estado atual das minhas coxas. Futebol, passo. “Os maiores desastres naturais” no NatGeo. Now we’re talking. Você sabe a quantas bombas atômicas equivaleu a grande explosão do Krakatoa? (Também não, tava distraída). Ainda assim, repita comigo: KRA-KA-TO-A. Belo nome para um bichinho de estimação. Apelido: Krak. A grande erupção aconteceu em 1883, isso eu pesquei. Olho para a foto em preto e branco dos exploradores europeus que habitavam a ilha e fico imaginando eu e você, jovens escritores do século XIX em uma aventura pelos trópicos. Você de fraque e ceroulas e eu com aqueles vestidos imensos com mil camadas, bebendo e fumando e escrevendo e vigiando o vulcão.

O fim chegaria numa noite agradável de agosto, durante um dos nossos habituais passeios pela praia. (Temos isso de preferir a praia durante a noite). Tudo começa com o silêncio. Depois os bichos entram numa espécie de euforia ou transe coletivo, e parecem acordar todos ao mesmo tempo. Chapados de amor e ópio, eu e você apenas nos abraçamos e observamos o horizonte. Até que ela surge, a primeira bola de fogo, imensa. E com ela o ruído mais alto da história. Os nativos correm prum lado e pro outro, organizando às pressas algum tipo de ritual. Nossos companheiros europeus se dividem entre os que rezam e os catatônicos. Eu e você somos os únicos que sorrimos. Esperamos a vida inteira por este momento. “Vamos virar pedra”, você diz, e eu tenho certeza de que essa foi a declaração de amor mais bonita que alguém já fez. Penso em todos os casais eternizados lado a lado em Pompeia e enfio as mãos por dentro da sua camisa. Você sabe o que acontece com o corpo humano quando engolido por lava? (Também não, estava distraída de novo).

Eu e você, no entanto, primeiro nos beijamos. Depois sentimos nossos corpos formigarem e coçarem um pouco, até ficarem leves, muito leves. E então foi ficando cada vez mais difícil de se mexer, e eu senti os primeiros fios do seu cabelo endurecerem sobre o meu rosto. Só tive tempo de deslocar a mão direita uns quinze centímetros pra cima, pra poder passar os próximos cento e trinta e um anos com aquela sensação de onde o seu cabelo encontra com a sua nuca.

Krakatoa explosion

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Sobre L.

Luiza S. Vilela escreve. E basicamente é isso. Mas, fora isso, nasceu acidentalmente em São Paulo, é capixaba de criação and coração e carioca por opção desde 2005. Fez letras na PUC, mestrado em literatura por lá também, trabalhou no mercado editorial um tempo e hoje freela de casa com a catiora Kate cochilando em seu pé. Acredita no vinho, no amor e no feminismo como salvação para todo o mal. Tem bem mais no www.luizaescreve.com Ver todos os artigos de L.

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