Dream is destiny

Estou convencida de que não durmo há pelo menos duas semanas. Quer dizer, dormir eu durmo. Fecho os olhos em algum momento entre meia noite e uma da manhã, e os abro pontualmente às oito e vinte do dia seguinte, auxiliada pelo trálálá do iPhone. Estrito senso, durmo. Mas não descanso. Abro os olhos zonza, como quem acabou de assistir a um filme muito intenso, cenários e personagens bizarros rodopiando a meio metro da minha cabeça. Estou convencida de que estou presa em algum tipo de loop. Esta vida é sonho de alguém do outro lado, e meus sonhos são a vida acordada de outra versão de mim. Sonho com ela, ela sonha comigo.

 
Importa mesmo é que do outro lado eu já te esqueci. Esqueci não, superei. Não é assim que dizem as revistas? “10 dicas infalíveis para superar um término”. O normal seria o contrário. Dizer pra todo mundo que nem penso mais em você e sonhar com o seu abraço. Mas não. Em um dos meus sonhos recentes você estava aflito por ter me encontrado casualmente, e eu segurava o seu rosto entre as minhas mãos – palma, bochecha, bochecha, palma. Serena. Respirava fundo e te dizia: “Relaxa, meu bem, passou. A gente já pode ser amigo”. Era pra ser o contrário. Como não consigo compartimentar memórias sonhadas e memórias vividas, passei o dia com a sensação do seu rosto entre as minhas mãos, e essa frase rodopiando estranha na minha boca. Repeti as palavras em voz alta pra testar. Relaxa, meu bem, passou. Agora já não sei se era um recado pra você ou uma mensagem de mim pra mim mesma.

Relaxa, Alice. Passou.

 
Walking Life


Rituais IV

Quando eu e as minhas primas éramos adolescentes, todas as questões de importância eram resolvidas por intermédio de um livrinho rosa e branco de capa dupla, “Livro da sorte” ou qualquer coisa que o valha. O processo era simples: você segurava o oráculo com as duas mãos, fechava os olhos, mentalizava uma pergunta e girava o bicho sete vezes. E então abria numa página qualquer. O que estivesse escrito na página da direita resolveria o seu dilema. E resolvia. Every single time. Também pudera. A frase que mais aparecia pra mim era algo do tipo “sua intuição está aguçada, siga o seu coração”. Acho que tomei muitas decisões apressadas por conta desse livrinho.

Corta pra vida adulta. A minha versão atual desse ritual adolescente consiste em usar um livro de poesia no lugar do repetitivo livrinho da sorte. Sempre que estou ansiosa. Sempre que estou indecisa. Sempre que estou cagada. Sempre que preciso de uma resposta profética que me cure — caminho até a estante, fecho os olhos, medito e miro na terceira e na quarta prateleiras da lateral. Puxo um livro e abro aleatoriamente. Fiz isso ontem, antes da nossa primeira balada enquanto ex-casal. A resposta eu postei no instagram pra você ver.

E eis que hoje, palpitando de um coquetel nocivo de remorso e redbull, puxei da cabeceira o livro sorteado ontem e abri.

Recomendo tentar em casa:

paulo


mulheres desabrocham, homens amadurecem

Em menos de duas semanas ouvi de dois ex-namorados o quanto era lindo me ver “desabrochando”. Um numa carta mais ou menos recente que eu achei acidentalmente, o outro por email, falando sobre o tempo presente. Acho essa palavra terrível. Primeiro porque o termo “brochar”, mesmo acompanhado de um prefixo, não tem nada a ver com cartas de amor – e depois porque implica que eu sou uma flor delicada, o que não poderia estar mais longe da realidade. Mas vai além disso. Em ambos os casos a sensação era de orgulho por estar fazendo ou ter feito parte desse meu “desabrochar” (o som da palavra me incomoda), como se sozinha eu não fosse capaz de amadurecer. Também acho a palavra infantil, piegas. Meninas de 15 anos desabrocham. Mulheres de 20 e poucos amadurecem. Adultescem. E o processo é lento, doloroso e sofrido. Nada semelhante ao desabrochar sereno de uma flor.

Sei que é feio recusar elogios, e sei que não fizeram por mal (todas as cartas de amor são ridículas anyway). Mas que o próximo amor escreva em suas cartas o quanto é lindo me ver lutando.


exercício para um filme do kaufman e uma música do franz

A dor do fim, bem disse meu poeta-mentor, gosta de andar pra trás, de dor em dor, até que tenha contaminado todas as memórias da história que acaba. Would you erase me? Eu te apagaria, sim. Assim hipoteticamente. Por uma questão de rigor e exercício poético, eu te apagaria.

Aí o rio que eu chorei nas últimas semanas desaguaria de volta pra dentro de mim, você levantaria do meu colo com o rosto seco naquela fatídica segunda-feira de dezembro e as malditas palavras “eu te amo mas preciso ficar sozinho” viajariam serenas de volta pra sua boca, e você as engoliria.

Desconheceríamos Nova York, Santiago e Buenos Aires e devolveríamos para as prateleiras e corredores da Etna os móveis e as decorações que compramos juntos. As garrafas de vinho se encheriam e o prazer de ouvir o som estalado da primeira gota passando pelo bico da garrafa e caindo na taça voltaria a ser estranho pra mim.

Eu te desconvidaria pra morar junto comigo e a mancha de vinho na parede do meu quarto antigo desapareceria, junto com os roxos espalhados pelas suas mordidas no meu corpo. O caminhão de mudança faria o caminho inverso e estacionaria na Assunção. Até que no dia 10 de janeiro de uns anos atrás o céu devolveria o meu pedido mudo e desesperado de que por favor eu me apaixonasse por você.

Três dias antes os nossos amigos nos desapresentariam, e nós partiríamos como estranhos contentes, até que nos esbarrássemos por acaso na fila do metrô de superfície e você reconhecesse no arquear da minha sobrancelha aquela foto.

sunshine


The universe expanded

Aquela música que te faz ter a sensação de estar no season finale da sua própria série, a câmera fazendo uma panorâmica da cidade, girando girando, fechando um close em todos os personagens secundários, uns na fossa e outros em momentos de redenção, até que foca em você, personagem principal, sentado dentro de um ônibus ou um avião ou um trem, a vida em suspense, aquela expressão vazia de quem não pode denunciar – e talvez também nem saiba – o que acontece no primeiro capítulo da próxima temporada.


A casa

A casa respira só. Um organismo vivo e gigante na escuridão do que restou da Mata Atlântica de Guarapari. Todos que a ela pertencem estão longe, em outras cidades, outros jardins. A casa sente falta de seus humanos. Ela os assombra enquanto tentam encontrar sentido longe dali.  Encho a cara em outra varanda e posso sentir seus muros altos de pedra me vigiando, espreitando, regulando a quantidade de felicidade permitida longe de seus gramados impecáveis. Um a um os seus habitantes ocasionais começam a invadir toda e qualquer história que tente contar. Em que festas dançam meus primos? Em que camas dormem meus tios? O que sonham as crianças? O que deseja a essa altura minha avó? Fora de seu habitat natural parecem todos um tanto deslocados. Por costume, ou para desacelerar a respiração, prontifico-me a posicioná-los em seus locais favoritos. No canto esquerdo da mesa da varanda, de pé em frente ao balcão da churrasqueira, na espreguiçadeira de palha da varanda da copa. Na meia-lua rasinha da piscina, no chuveirão do jardim, no sofá da sala de TV. Num colchonete jogado na grama, bem no finzinho do dia. Findo o exercício, sinto que nos acalmamos, a casa e eu. Sabe como é: falta pouco pra começar o horário de verão, nossos pinheiros de plástico se agitam dentro de caixas mofadas no alto dos armários e em mim começa uma coceira que só passa depois que eu e ela compartilhamos o primeiro (o milésimo) céu de madrugada.


eclipse em escorpião

De todas as coisas inescapáveis, envelhecer é sem dúvida a mais bizarra. E começa no dia em que a gente começa. E é constante. A linearidade do tempo é o meu maior pânico – um trem rumo ao infinito. We are on the tracks we’re on, disse uma amiga outro dia. Estamos nos trilhos em que estamos. Mudar é quase um milagre.